Tiago Jeison Chaves

Ψ Psicólogo Clínico ◈ CRP: 02/24333 Ψ

Psicologia Clínica

Ansiedade, angústia e sofrimento emocional

Um sentimento difícil de explicar...

Acordar já cansado, mesmo após uma noite inteira de sono. O corpo levanta, mas algo permanece pesado. O dia começa e, junto com ele, uma sensação difusa de urgência: tarefas que ainda nem começaram já parecem atrasadas. O celular vibra, as notificações se acumulam, e cada pequena decisão parece exigir um esforço maior do que deveria.

 

Ao longo do dia, o pensamento retorna sempre aos mesmos pontos. Não há um medo claro, nem um problema definido, apenas uma inquietação persistente, como se algo estivesse fora do lugar. O corpo sente antes de compreender: a respiração encurta, os ombros se mantêm tensos, a atenção se dispersa. Mesmo nos momentos de pausa, o descanso não se completa. O cansaço permanece, não como falta de energia física, mas como dificuldade de estar presente.

 

À noite, quando o silêncio chega, a mente não o acompanha. Pensamentos se sucedem sem ordem, lembranças se misturam a preocupações futuras, e o tempo parece perder contorno. Nada de grave aconteceu durante o dia, e ainda assim há um peso difícil de explicar. É nesse ponto que muitas pessoas se perguntam: “Por que me sinto assim, se aparentemente está tudo bem?”

Muitas pessoas chegam à clínica sem conseguir nomear exatamente o que sentem. Falam de um aperto persistente, de uma inquietação sem objeto definido, de um cansaço que não se dissolve com o repouso. O sofrimento emocional, nesses casos, não se apresenta como um episódio pontual, mas como uma sombra ou tonalidade de fundo que atravessa o cotidiano. Ele se insinua nos gestos mais simples, altera o ritmo do dia, pesa sobre o corpo e modifica a forma como o mundo é percebido. Algo continua acontecendo, mas já não do mesmo modo: o tempo parece mais curto, as vez muito mais longo… o futuro se impõe com urgência, e a relação consigo e com os outros passa a ser marcada por tensão, estranhamento ou recolhimento.

A ansiedade como experiência do tempo

Na perspectiva fenomenológica de Martin Heidegger, a ansiedade pode ser compreendida como uma alteração na forma como o tempo é vivido. O futuro deixa de ser apenas horizonte e passa a invadir o presente de maneira insistente. Pensamentos antecipatórios, preocupações recorrentes e a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento comprimem a experiência do agora.

Do ponto de vista existencial, a angústia não a descreve como um medo dirigido a um objeto específico, mas uma experiência mais profunda, na qual o mundo perde sua familiaridade. Tudo continua aparentemente igual, mas algo se desloca: aquilo que antes sustentava sentido deixa de oferecer apoio. A angústia, nesse sentido, não é apenas um sintoma, mas uma abertura, ainda que dolorosa, para a percepção da fragilidade do existir. Um espécie de termometro que aponta para algo que, mesmo invísível, insiste em aparecer fora do lugar.

O corpo que sente antes das palavras

Maurice Merleau-Ponty contribui com a questão ao lembrar que o sofrimento não é apenas pensado, mas vivido corporalmente, inscrito no na carne, antes mesmo de qualquer elaboração racional. A ansiedade, nesse sentido, não se anuncia primeiro como ideia ou pensamento organizado, mas como modificação do corpo vivido: a respiração encurta, a musculatura se mantém em tensão, o movimento perde fluidez, a atenção se fragmenta. O corpo se torna o primeiro lugar onde o sofrimento aparece, sinalizando que algo na relação com o mundo se tornou excessivo ou difícil de sustentar.

Esse corpo que sofre não é um objeto separado da consciência, mas o próprio meio pelo qual o mundo é percebido. Quando a ansiedade se instala, o corpo deixa de ser apoio silencioso da experiência e passa a ser vivido como peso, obstáculo ou fonte constante de alerta. O cotidiano, então, é atravessado por sensações de inquietação, fadiga e desconforto difuso, mesmo na ausência de uma causa claramente identificável.

Nem sempre é possível nomear o que se sente. Muitas pessoas chegam à clínica dizendo apenas que “não estão bem” ou que sente que “algo vai dar errado”. Essa dificuldade de expressão não indica falta de clareza ou resistência, mas revela que a experiência ainda não encontrou linguagem suficiente para se dizer. Antes de ser formulado em palavras, o sofrimento se expressa no corpo, nos silêncios, nos gestos e nas repetições. A escuta clínica, nesse contexto, torna-se um espaço onde aquilo que ainda não pode ser dito encontra tempo e cuidado para, pouco a pouco, ganhar forma e sentido.

Sofrimento emocional e mundo contemporâneo

O sofrimento emocional deve ser compreendido no contexto do mundo em que vivemos (nossa história, nosso contidiano, posições sociais e relações). Exigências constantes de desempenho, produtividade, disponibilidade e adaptação criam um cenário onde o descanso, a pausa e o silêncio passam a ser vistos quase como falhas morais. Nesse ambiente, o sofrimento no trabalho é muitas vezes vivenciado como falha pessoal, quando, na realidade, ele expressa tensões sociais e estruturais mais amplas.

No cotidiano profissional, essa lógica se manifesta em metas constantes, prazos apertados e a expectativa de que o sujeito esteja sempre disponível e eficiente. O tempo deixa de ser vivido como espaço de experiência e passa a ser gerido como um recurso a ser otimizado. Isso leva à internalização do sofrimento, que é interpretado como uma incapacidade pessoal, em vez de ser reconhecido como um efeito das condições do trabalho e pressões sociais.

Essa internalização silenciosa faz com que a ansiedade persista além do ambiente profissional, invadindo o descanso, o lazer e as relações. O corpo se mantém em estado de alerta, como se sempre houvesse algo a ser feito. O trabalho deixa de ser uma atividade isolada e se transforma no centro da identidade, dificultando a separação e o limite.

Compreender o sofrimento emocional hoje exige uma visão crítica, reconhecendo que ele não é uma fragilidade individual, mas uma resposta às exigências do mundo contemporâneo. A clínica oferece um espaço para refletir sobre essas tensões e ressignificar o sofrimento, sem culpabilizar quem o vive.

A perda do mundo comum

Hannah Arendt nos ajuda a compreender como a ansiedade e a angústia não surgem apenas de conflitos internos, mas também de transformações profundas na forma como o mundo comum é vivido. Quando os espaços de sentido compartilhado se fragilizam, o sujeito passa a sustentar sozinho aquilo que antes era distribuído entre relações, instituições e narrativas coletivas.

Na ausência de um mundo que ofereça referências relativamente estáveis, a experiência cotidiana tende a se tornar mais incerta e solitária. A angústia, nesse contexto, não aparece apenas como sofrimento psíquico individual, mas como expressão de um desenraizamento: uma dificuldade de se sentir situado, pertencente e reconhecido em um mundo que parece exigir constante adaptação sem oferecer chão.

Arendt descreve como a perda do mundo comum empobrece a experiência humana, reduzindo os espaços de ação, palavra e aparecimento. Quando a vida se organiza predominantemente em torno da sobrevivência, da produtividade e da gestão do tempo, o sujeito pode experimentar uma sensação persistente de urgência e insuficiência, buscando subterfúgios para tamponar esse mal-estar. A ansiedade, então, deixa de ser apenas reação a eventos específicos e passa a funcionar como um pano de fundo permanente, acompanhando o viver como uma tensão as vezes sofrida, e outras vezes silenciosa.

Nesse sentido, a angústia pode ser compreendida como sinal de que algo na vida deixou de fazer sentido, e não apenas como algo que “não vai bem” no indivíduo. Ela aponta para uma ruptura na relação entre a pessoa e o mundo que habita, revelando a dificuldade de encontrar lugares de escuta, reconhecimento e ação compartilhada. Assim, o sofrimento emocional expressa não apenas uma vivência íntima, mas também uma crise do modo como estamos juntos no mundo.

A literatura também oferece imagens potentes dessa experiência. Em Kafka, por exemplo, o sujeito se vê diante de um mundo opaco, difícil de compreender, no qual as regras parecem mudar sem aviso. Em O Processo, Kafka descreve um sujeito lançado em um mundo no qual algo parece sempre fora do lugar, embora nada possa ser claramente apontado. Josef K. vive sob uma acusação que nunca se esclarece, movendo-se em um sistema opaco, onde a sensação de urgência e culpa precede qualquer compreensão. Essa atmosfera ecoa a experiência contemporânea da ansiedade, marcada por tensão constante e falta de referências claras. Um estranhamento e impotência que dialoga profundamente com a experiência contemporânea da angústia que muitos tem vivido em nossos dias.

Contribuições da psicologia e da neurociência

A psicologia e a neurociência contribuem para a compreensão de como estados prolongados de alerta impactam o corpo, a atenção e a forma como o sujeito se orienta no mundo. Situações de estresse contínuo tendem a manter o organismo em um regime de vigilância permanente, intensificando respostas fisiológicas e tornando mais difícil a experiência de descanso, de segurança e de presença. O corpo passa a reagir como se estivesse sempre diante de uma ameaça iminente, mesmo quando não há um perigo concreto identificado.

Essas abordagens ajudam a compreender por que a atenção se fragmenta, o sono se altera e as emoções se tornam mais difíceis de regular. No entanto, tais explicações não esgotam o sofrimento. Quando a ansiedade é compreendida apenas como um desajuste neurobiológico ou como uma disfunção dos sistemas de resposta ao estresse, corre-se o risco de reduzir a experiência a um funcionamento orgânico, silenciando aquilo que o sofrimento tenta comunicar.

O sofrimento emocional não é apenas algo que acontece no organismo, mas algo que se constitui na relação entre corpo, história e mundo. Ele se inscreve na forma como o tempo é vivido (ora acelerado, ora suspenso), na maneira como o corpo se coloca diante das situações e na forma como o sujeito se reconhece ou se estranha em sua própria experiência, vivendo em meio aos outros. Nesse sentido, a ansiedade não é apenas uma reação fisiológica, mas uma expressão de como a pessoa está situada em seu contexto de vida, em sua história e suas relações.

Ampliar o olhar para além do biológico permite compreender que o sofrimento carrega sentidos, ainda que estes não estejam imediatamente disponíveis. Escutá-lo implica considerar não apenas o funcionamento do corpo, mas também as narrativas, os silêncios, as repetições e os impasses que atravessam a experiência vivida. É nesse ponto que a escuta clínica se torna fundamental: não para eliminar rapidamente os sinais do sofrimento, mas para criar um espaço onde aquilo que se manifesta no corpo e na emoção possa ser reconhecido, elaborado e compreendido em sua complexidade.

A escuta clínica como espaço de elaboração

Experiências como essa são comuns na clínica psicológica e revelam que a ansiedade e a angústia nem sempre se apresentam como crises evidentes ou episódios isolados. Muitas vezes, elas se manifestam de forma silenciosa, como uma tonalidade que atravessa o cotidiano e modifica a maneira de viver o tempo, o corpo e as relações. A psicoterapia oferece um espaço no qual a ansiedade, a angústia e o sofrimento emocional podem ser acolhidos sem pressa de eliminação. Trata-se de um lugar onde a vida vivida pode ser narrada, interrogada e cuidadosamente compreendida, respeitando o tempo próprio de cada pessoa.

Na clínica fenomenológica, não se trata de corrigir sentimentos ou normalizar experiências, mas de escutar o que o sofrimento comunica, permitindo que novos sentidos possam emergir. Ao ser compartilhado, o sofrimento deixa de ser vivido exclusivamente em solidão e pode encontrar outras formas de significação.

Buscar atendimento psicológico não exige estar em um estado extremo de sofrimento. Muitas vezes, é justamente quando algo começa a perder sentido ou a pesar demais que a escuta se torna necessária.

Um convite à reflexão

Ansiedade e angústia não definem quem você é, mas indicam algo sobre a forma como sua vida está sendo vivida neste momento. Escutá-las, com cuidado e responsabilidade, pode abrir caminhos de compreensão mais amplos sobre si, sobre suas relações e sobre o mundo que se habita. Quando o sofrimento se torna mais intenso ou persistente, a escuta clínica pode oferecer um espaço de acolhimento e elaboração da experiência. Em alguns momentos, um acompanhamento contínuo se faz necessário; em outros, um atendimento pontual pode ajudar a atravessar situações específicas de crise.

O atendimento psicológico pode ocorrer de forma presencial ou online e em situações de sofrimento emocional intenso ou momentos específicos de crise, o plantão psicológico possibilita um atendimento pontual, voltado ao acolhimento e à orientação.

rio sena

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